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O Advento e a virtude teologal da esperança

   30/11/2014
Fonte: http://www.a12.com/   

   Começa o tempo de Advento, tempo de preparação para a jubilosa celebração do Natal. 

   É uma época em que temos uma série de atividades (confraternizações, encontros familiares, ações solidárias). Preparamos também nossas casas, ambientes de trabalho com símbolos natalinos e frases que expressem a espera pelo nascimento do Senhor. 

 


   Podemos dizer que é uma época de muita correria e corremos o risco de não prestarmos atenção ao que é essencial: a minha preparação para a vinda do Senhor. É muito importante lembrarmos que Natal é Jesus. 

 


   Sobre a simbologia do Advento e a sua celebração, recomendo alguns textos do nosso Portal: 


:. Advento: tempo de preparação para o Natal 
:. A celebração do Advento

   Gostaria de aproveitar esse momento para refletir com vocês sobre uma virtude que considero muito importante vivermos neste tempo: a esperança. Em Maria podemos ver o modelo de vivência desta virtude. Ela é a Mãe da esperança. Este tempo de Advento é um convite a esperar com Maria pelo Messias. Mas o que significa esperar?

 


A virtude teologal da Esperança: somos peregrinos

   Um dado fundamental para compreender quem somos é que nos encontramos “a caminho”. Podemos nos imaginar neste tempo como os três reis magos, caminhando rumo ao encontro do Messias, o salvador da humanidade.

 


   Nenhum de nós está neste momento pronto, acabado, maduro. Todos nós somos peregrinos, viadores. Um termo em latim busca expressar esse estado: status viatoris. O viator é, segundo este conceito, aquele que se encontra a caminho da felicidade, tanto daquela objetiva quanto da sua experiência subjetiva.

 


Esperança: virtude do viator

   A situação do estar “a caminho”, que caracteriza o ser do homem, tanto a um nível natural como sobrenatural, exige uma atitude esperançosa, para não esmorecer no caminho e manter a confiança em que a meta poderá ser alcançada.

 


   Essa atitude, que é básica e vital no homem, torna-se virtude somente por graça divina, já que é graças à Revelação que nós conhecemos realmente em que consiste a nossa felicidade e plenitude autênticas: participar eternamente da comunhão com Deus. Trata-se de um fim que o homem sozinho não poderia nem imaginar, olhando apenas para a sua natureza.

 


   Muitas vezes, inclusive, devido à confusão em que costuma viver, o homem pode fazer de coisas más o objeto da sua esperança. Por isso é tão importante Jesus Cristo, que ilumina o mistério do homem, mostrando-lhe em que consiste realmente a sua plenitude e felicidade, a verdadeira meta. Esse norte, que de alguma forma já possuímos graças à virtude da Fé, pela esperança confiamos que o alcançaremos, cooperando com a graça de Deus. Especialmente nos momentos difíceis é preciso manter a chama da esperança acesa.

 


A humildade e a magnanimidade: caminho para a esperança

   A atitude natural da esperança só é possível no homem que possui as virtudes da magnanimidade (grandeza de ânimo) e da humildade (viver na verdade).

 


   Estas virtudes sustentam o homem no caminho da realização e perfeição de acordo com a sua natureza. Por um lado, pela magnanimidade ele empreende grandes conquistas. Por outro, pela humildade, ele não fica prostrado diante da evidência das próprias limitações.

 


   Pela magnanimidade e humildade o homem não só está pronto, bem disposto para receber a esperança teologal, senão que também para mantê-la e amadurecer nela. Sempre que alguém a perde, podemos traçar a causa dessa perda na falta de magnanimidade ou de humildade.

 


O fundamento da esperança

    A magnanimidade e a humildade predispõem o homem para a esperança, mas não constituem o seu fundamento.

 


O fundamento da nossa esperança é Cristo.

   Se podemos hoje sonhar e esperar com a vida eterna é graças a Ele, que venceu o pecado e a morte, que assumiu e elevou a nossa natureza humana. Nele o homem é realmente reconciliado com Deus.

 


   Não há esperança, como permanente elevação do ser do homem, se não é por Cristo, em Cristo e de Cristo.

 


Juventude e esperança

   A esperança é uma atitude natural que caracteriza os jovens. Por que será? É, seguramente, porque eles têm mais futuro que passado. Porém poderíamos dizer que a juventude é também uma atitude diante da vida.

 


   Conheço alguns jovens envelhecidos e alguns idosos com uma juventude impressionante. São João Paulo II em certa ocasião se definiu como um “jovem de 83 anos”.

 


   Este tipo de juventude é possível graças à esperança. O filósofo Josef Pieper afirma, agudamente, que a obsessão do nosso tempo com a manutenção da juventude natural pode ter as suas causas nessa falta de esperança sobrenatural.

 


Formas da falta da esperança: o desespero e a presunção

 

 

 

  O desespero

   

O “ainda não” que caracteriza o status viatoris, é convertido pelo desespero em “já não”. Fundamentalmente, trata-se de um não confiar mais em que seja possível alcançar a meta, tanto natural como sobrenatural do homem. 

 


   O desespero do cristão é muito mais radical do que a do pagão. Isto porque para um cristão dizer “já não” é muito mais radical do que para um pagão. Significa a condenação eterna, enquanto que para um pagão apenas a não realização num nível terrestre. A possibilidade de que o fim do homem não seja bom assume, no cristão, uma dimensão de eternidade.

 


A presunção

   Enquanto o desespero assume notas trágicas, a presunção, na qual o “ainda não” é transformado artificialmente em “já”, assume notas cômicas, como a história do ratinho que sentado no lombo do elefante diz para ele: olha quanta poeira estamos levantando. Ambas têm, na raiz, um profundo irrealismo, uma traição à experiência humana.

 


   Pieper identifica dois tipos de presunção que cristalizaram historicamente em duas vertentes espirituais. Por um lado, o pelagiano, aquele que crê que o homem pode salvar-se sozinho, com as suas forças, sem necessidade da graça divina. Este é o que confia cegamente nas possibilidades do ser humano. Falta humildade.

 


   Por outro lado, Pieper menciona Lutero e os reformistas, que pensavam que, independentemente do que o homem fizesse, ele já estava salvo (“Peca mais, mas crê mais”). Paradoxalmente, por trás dessa atitude presunçosa esconde-se uma profunda desesperação, já que no fundo não se acredita que o homem possa, realmente, ele mesmo alcançar o que Deus lhe promete, viver de acordo com a filiação divina.

 


Conclusão

   Aproveitemos esse tempo precioso do Advento para vivermos mais a virtude da esperança. Lembrando do que nos diz São Paulo: “é na esperança que fomos salvos” (Rm 8,24)

 


   Vivamos este tempo mais centrados em Cristo, olhando para Ele e dizendo com sinceridade: Senhor o que tenho em mim ao olhar para Ti que me sobra e eu devo mudar? O que você tem que ainda me falta? Enfim, vivamos uma intensa conversão.

 


   Certamente, vivendo bem este tempo podemos dar maior razão da nossa esperança a todos os que nos peçam. (Ver 1Pe 3,15)

 


   Façamos uma boa preparação para o Natal, para que Cristo encontre em nós portas (corações) abertas e um lugar agradável para que Ele possa nascer e transformar nossas vidas.

 


Que Nossa Senhora, Mãe da esperança, nos acompanhe neste tempo.



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