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Fraternidade, meio ambiente e ecumenismo



Dom Demétrio Valentini
    Bispo Emérito de Jales (SP)

 

Em boa hora, está chegando a quaresma deste ano. Ela sempre proporciona um tempo favorável para a reflexão, motivando-nos a enfrentar os desafios da vida. 

Desta vez, com a persistência da crise que envolve o mundo com suas ameaças de agravamento, mais ainda a quaresma faz perceber a validade de suas advertências.

Para reforçar este clima de seriedade, já há mais de meio século que a Igreja nos convida, no tempo da quaresma, para a Campanha da Fraternidade.

Neste ano de 2016, a Campanha é ecumênica, promovida não só pela Igreja Católica mas também por diversas outras denominações cristãs, destacando-se a Igreja Evangélica Luterana, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, e a Igreja Ortodoxa de Antioquia.

O tema escolhido tem nítidas conotações ecológicas. “Casa Comum, nossa responsabilidade” 

E o lema, expresso por palavras típicas do linguajar bíblico: “Quero ver o direito brotar como fonte, e correr a justiça qual riacho que não seca”, tiradas do Profeta Amós.

Como objetivo, a Campanha propõe metas bem concretas: “assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e empenharmo-nos, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis, que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum”.  Portanto, uma campanha com propostas bem concretas. 

Mas o que de imediato chama a atenção, são as duas motivações, muito atuais, que a Campanha entrelaça, fortalecendo seu dinamismo: o meio ambiente, e a abertura ecumênica. 

Estas duas motivações servem de combustível, a dar vigor e consistência aos objetivos propostos. O primeiro incentivo é dado pelo ecumenismo. Já é significativa a tradição que vem se firmando, de promover, de cinco em cinco anos, uma Campanha da Fraternidade ecumênica. E vale lembrar que nasceu do ecumenismo o primeiro movimento de adesão e de entusiasmo diante da proposta de João 23 de realizar  um concílio. 

O surpreendente entusiasmo pela proposta de um concílio para superar as rupturas eclesiais, foi suscitando de início um processo de superação das hostilidades, mas depois experimentou as resistências que brotaram dos preconceitos sedimentados ao longo de séculos. 

Mas a insistente proposta de reaproximação das Igrejas, pode contar, para esta Campanha, com  boas notícias. No ano que vem se completam 500 anos da Reforma Protestante, no dia 31 de outubro. Por ocasião desta data, já está definido um grande encontro ecumênico, no contexto histórico dos países nórdicos da Europa, onde a Reforma Protestante encontrou acolhida profunda. O Papa Francisco já confirmou sua presença, e isto dá ao fato, certamente, uma dimensão mais ampla. 

Da parte das Igrejas Ortodoxas também estão chegando boas notícias. Finalmente vai se realizar, na Ilha de Creta, o “sínodo pan-ortodoxo”, reunindo os patriarcados ortodoxos, sob a liderança do Patriarcado de Constantinopla..

A outra motivação, de ordem ecológica, conta com o embalo da última reunião, em Paris, sobre a defesa do planeta terra, nossa “casa comum”. Esta motivação também recebeu um impulso especial pela recente encíclica “Laudato Si”, dedicada toda ela à questão da preservação do meio ambiente. 

Portanto, vamos ter uma Campanha da Fraternidade com um tema muito pertinente, animado por motivações ecumênicas e ecológicas que lhe dão sustentação. 

Uma campanha oportuna e pertinente, que chega num tempo de evidentes urgências.  

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