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Família: o amor é nossa vocação



Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo


De 20 a 27 de setembro, em Filadelfia, Estados Unidos, acontece o Encontro Mundial de Famílias. Vindos de todo o mundo, casais e famílias refletem sobre o tema - “família - nossa vocação é o amor” e participam de um simpósio teológico sobre o tema, além de conferências, mesas redondas, testemunhos, mementos culturais e celebrativos. Na parte final, também o Papa Francisco estará presente e dirigirá uma mensagem importante às famílias.


O tema vai na mesma direção dos trabalhos da próxima assembleia geral do Sínodo dos Bispos, a ser realizada em Roma de 4 a 25 de outubro deste ano. Os trabalhos sinodais versarão sobre a vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo. Em Filadelfia, parece que já é oferecida a resposta à questão posta no Sínodo sobre a vocação da família: “nossa vocação é o amor”.


Os participantes do Sínodo, a pedido do Papa Francisco, se confrontarão mais uma vez com a vocação e a missão da família. A cultura contemporânea questiona e, da alguma forma, corrói as certezas a respeito das convicções mais elementares sobre o casamento e a família. Já não mais aparece claramente qual seja a razão de ser da família e se buscam soluções alternativas ao casamento tradicional entre um homem e uma mulher; a indissolubilidade e a fidelidade do matrimônio parecem coisas ultrapassadas; a fecundidade parece um elemento muito secundário e a própria sexualidade “binária”, entendida normalmente como masculina e feminina, é vista por muitos como uma sujeição insuportável a regras da natureza...


As “verdades” sobre o ser humano, o casamento, a família e as relações humanas básicas tornaram-se “líquidas” e se estão “vaporizando” cada vez mais... O que a Igreja tem a dizer sobre essa tendência cultural, que se vai impondo de maneira inexorável? Onde encontraremos base sólida para falar da vocação e da missão da família no mundo contemporâneo? Contrariamente a certos delírios de onipotência, o certo é que não somos nós que inventamos o ser humano, a sexualidade, o casamento, a geração de filhos, a paternidade e a maternidade, a família. Deve, portanto, haver um sentido já dado nessas realidades, antes mesmo que o homem tente inventar a si mesmo...


A vocação da família está inscrita na sua própria natureza humana que, de maneira misteriosa, mas irrefutável, expressa a vontade do Criador. Foi Deus quem dispôs a natureza do homem e da mulher para se atraírem e para formarem família. A vocação ao casamento e à família já está expressa no relato bíblico da criação, quando Deus-Criador diz: “não é bom que o homem esteja só”. Adão vive em solidão desoladora no meio do jardim do Éden, embora rodeado de plantas, animais e seres de todo gênero. Entre eles, “não encontrou nenhum que lhe correspondesse”. Deus, então, criou a mulher e a apresentou a Adão, que se identificou com ela e exclamou: “agora sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (cf Gn 2,18-24). Homem e mulher, portanto, foram feitos um para o outro e, nesta recíproca complementariedade, está a sua vocação.


É certo que o casamento e a família contrariam o ideal individualista de liberdade e felicidade. Empenhar-se num laço matrimonial estável parece pouco atraente; ter filhos, assumir responsabilidades sobre outros, inclusive com renúncias e sacrifícios pessoais, não parece ter sentido para quem centraliza a felicidade na satisfação do próprio “eu”, acima de tudo. Mas esse ideal da vida individualista e egoísta leva à solidão e a um grande vazio. O resultado final também pode ser a experiência de uma tremenda fragilidade: quem se negou a partilhar a vida com generosidade poderá esperar generosidade da parte dos outros?


Talvez essa mesma lógica individualista esteja preparando um renovado apreço ao casamento e à família. A experiência de que, de fato, “não é bom para o homem viver só”, também o leve a redescobrir que o ser humano, feito à imagem da Trindade, só encontra na comunhão, na doação e na partilha da vida o sentido da existência. Falar da vocação ao matrimônio e à família, requer necessariamente retornar ao fundo teológico e antropológico do matrimônio e da família.


Publicado em O São Paulo 

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