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DISCURSO DO BISPO DOM NERI AO GOVERNADOR DE MATO GROSSO PEDRO TAQUES



DISCURSO DO BISPO DOM NERI JOSÉ TONDELLO AO GOVERNADOR DE MATO GROSSO PEDRO TAQUES.

EXCELENTÍSSIMO SENHOR GOVERNADOR DO ESTADO DE MATO GROSSO – DR. PEDRO TAQUES.

 

  1. Em primeiro lugar, quero externar, em nome dos irmãos do episcopado do Mato Grosso, a alegria por este encontro. Agradecemos ao senhor por ter aceitado o nosso convite.
  2. Em segundo lugar, aqui representamos nove (09) circunscrições eclesiásticas, desde a Arquidiocese de Cuiabá, mais sete (07) Dioceses do interior e a Prelazia de São Felix do Araguaia;
  3. Gostaria de dizer, que, a chegada do trabalhismo ao palácio Paiaguás, em Cuiabá ocupando o maior encargo de responsabilidade pública, na pessoa do senhor Dr. Pedro Taques, nosso Governador, o Mato Grosso recupera a história da Consolidação das Leis de Trabalho. O povo mato-grossense fala em esperança. O novo cenário político devolveu ao nosso povo o direito de sonhar e crer que uma nova dinâmica está nascendo com a sua chegada ao Governo. A expectativa é grande;
  4. Em quarto lugar, gostaria de descrever apenas alguns tópicos da nossa realidade, aliás, já conhecida pelo senhor com muito mais detalhes. O Mato Grosso é hoje, uma realidade complexa, ampla, dispersa, longínqua e desafiadora. Venho conhecendo o Estado de Mato Grosso há 12 anos. O nosso Estado está se transformando de maneira mais acelerada que o Brasil em geral. Com a chegada da tecnologia de ponta, nosso Estado de naturaganha a cada dia novo impulso. Somos o Estado que mais cresce economicamente no Brasil, o terceiro Estado, que mais exporta depois de São Paulo e Rio de Janeiro. Vivemos aqui a cada dia um Estado cada vez mais amarelo pintado pelo milho e pelo girassol, cada dia mais branco pelo gado nelore e pelo algodão, cada dia mais verde pela soja, também pela teca do extrativismo, que vem substituir o cerrado e a floresta amazônica. Contudo, a disparidade e a desigualdade social são das mais gritantes. Nosso potencial é enorme. Matéria prima, mão de obra, água, terras das melhores do mundo, minérios, mata e floresta entre outras fontes de riquezas. Os índios que são um patrimônio da humanidade é patrimônio nosso também. Apesar de tanta riqueza, nosso povo, ainda, boa parte não tem direito nem de tomar nem sequer um copo de água gelada, porque nem de energia elétrica dispõem. Nossas estradas oferecem muito perigo e risco à vida das pessoas. Pessoas morrem nos atoleiros, crianças nascem a caminho do hospital. Jovens são vítimas da violência, da droga e do álcool. Muitos de nossos irmãos idosos envelhecem sem dignidade e sem o mínimo de aposentadoria. Não contamos com órgãos públicos ambientais que eduquem o nosso povo. Quando chegam, o nosso povo se esconde de medo. As multas que recebem os comprometem para o resto da vida e a vida de seus filhos e netos. Serão escravos para sempre. Vivemos cercados de espiões daqui e do exterior sem saber qual a sua intenção. Nossa região Noroeste, por exemplo, onde conheço um pouco melhor, é a região mais abandonada e esquecida nos últimos anos. O Estado timidamente se faz presente. Falava-se muito de São Felix, hoje nossa região perde por todas as demais. Contamos com a presença de mais de 25 assentamentos. Cerca de 70 a 80 por cento da nossa população não dispõem de titulo e reconhecimento público de suas propriedades rurais. Perdemos muito da Agricultura Familiar, sabendo de que é ela a responsável por cerca de 70% da produção de alimentos. Mais, nossas famílias não podem investir, porque não conseguem subsídios. De outra parte, os conflitos de terras levam à morte trabalhadores do campo e da cidade. A realidade dos índios é complexa, dura e triste. Herdamos uma história que foi de incentivo para ocupar e trabalhar nestas terras, desde os anos de 70, 75, e, hoje nosso povo é taxado de criminoso. Senhor Governador, perdoe-nos por esta descrição, mas não temos como não vê-la. Ela ecoa em nossos ouvidos e ela arde como pimenta aos nossos olhos. Nosso povo, sempre, ordeiro e trabalhador, quer contribuir na construção da paz neste Estado. Quer trabalhar e viver em paz. Vieram em busca de alguma coisa de melhor, como nos lembra, também o nosso Papa Francisco. Esta realidade nos sensibiliza muito e nos faz sofrer junto com nossa gente. Temos conhecimento recentemente, de que estradas em que estava previsto o início de asfalto, projetos novamente foram suspensos. A vocação econômica é incerta e insegura. Alguns agricultores começaram investir no plantio de arroz nosso de cada dia. Na hora de transportar para Vilhena, não temos estrada. Enquanto cofres públicos são assaltados pelo monstro da corrupção, nosso povo é assaltado com uma saúde sucateada, educação comprometida e, ou vendida para estrangeiros. Nosso combustível aumenta abusivamente. Poderia continuar com esta descrição, contudo, viemos aqui com o objetivo de estreitar nossa amizade e nosso objetivo em construir um caminho de diálogo dentro dos trâmites do respeito às instituições e atribuições a que cada uma lhes compete. Estamos dispostos a assumir o compromisso para com o nosso povo dentro da ótica da ética, da verdade e da justiça. E, conforme a Doutrina Social da Igreja, estamos prontos a contribuir e a fazer nossa parte. Nossa pergunta final, contudo, consente: o que podemos fazer mais e melhor em prol do Bem Comum de todos. Igreja e Estado quais as ações de conjunto que podemos encarar com o intuito de diminuir a dor e o sofrimento desta sociedade que vê o futuro incerto, e, ao mesmo tempo, com esperança?    

                                                               Dom Neri José Tondello

                                                   Cuiabá – MT – 26 de Maio de 2015

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