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A PROCURA DOS CHINELOS



A PROCURA DOS CHINELOS!!

 

``Se não for possível diminuir a sobrecarga, é preciso ser criativo para viver bem cada instante.”

 

Os dias estão mais aquecidos. O verão se aproxima. Os pés parecem querer liberdade. A vida supõe normalidade. No lugar dos calçados fechados, chinelos recordam frescor, espontaneidade, leveza. Faz um bem enorme ter uma leveza nos pés e na alma. Não há necessidade de esperar pelo período de férias e nem aguardar o aval dos outros. Aliviar o ritmo faz parte do cuidado que cada um pode e deve alcançar a si mesmo.

 

Mas onde estão os chinelos? Na infância, com frequência, os chinelos eram extraviados. Às vezes, era encontrado o do pé esquerdo e faltava o do pé direito. Em outras situações, os chinelos já batidos pelo uso diárioacabavam rompendo as tiras. O concerto era artesanal. Dava-se um jeito. E era possível usar por mais um tempo. Porém, mais adiante, chegava o momento de abandonar os chinelos surrados. A expectativa era por um novo par. E que festa quando se ganhava chinelos novos.

 

As comodidades se multiplicaram. Ficou mais fácil adquirir um par de chinelos. Pode até ser uma dica: dê um de presente ao amigo secreto. O desafio não é o calçado, mas, sim, como aliviar o passo. Em tempos de agendas cheias e multiplicação de preocupações, os pés acabam impedidos do frescor da liberdade e da leveza da vida. Há uma velocidade roubando a espontaneidade, obrigando o retardamento de dias mais serenos. Se não for possível diminuir a sobrecarga, é preciso ser criativo para viver bem cada instante.

 

Não convém deixar os chinelos guardados. Calçados precisam ser gastos. Afinal, a vida não é uma caminhada sem fim? Cada situação requer a adequação da roupa e do calçado. Aguardar por dias com menos agendamentos pode ser perda de tempo. Momentos são provocados, a partir de decisões mais profundas, onde a prioridade é a própria vida. Deixar-se empurrar pela falta de tempo é ver-se obrigado a sufocar o desejo de uma vida com mais compasso e menos sufoco.

 

Procurar pelos chinelos pode ser uma criativa desculpa para tentar encontrar um pouco de serenidade e de paz. Problemas fazem parte do ‘kit existencial’. Mas eles não têm tamanho. Quem dá volume às dificuldades somos nós mesmos. Quem sabe que com os pés livres, o coração também experimente aquela sensação de elevação, só pelo fato de ter permitido, aos dias, um ritmo menos sufocante. Que os próximos tempos permitam matar saudades dos chinelos!

 

Texto extraído do Jornal Correio Riograndense, edição do dia 11 de novembro de 2014.

Olhar à vida - À procura dos chinelos, do Frei Jaime Bettega

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