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Como se rouba em 2013



Dom Redovino Rizzardo
Bispo de Dourados (MS)

 

No artigo anterior, trouxemos um sermão do Pe. Antônio Vieira sobre como se furtava em 1655. Estamos em 2013. É provável que, também nesse campo, tenha havido alguns avanços...


Para começo de conversa, trago um caso hilariante, tirado de um vídeo que me foi enviado via internet. Como dizem os italianos, “se non è vero, è ben trovato”: se não é verdadeiro, pelo menos se presta para a ocasião!

 

Um homem estaciona o carro, desce do veículo e assalta uma farmácia. Enquanto está ocupado na rapina, nova surpresa: outro personagem aparece e leva o carro do ladrão. Ao voltar, ele olha de um lado para outro, sem acreditar no que via (ou melhor: no que não via!).

 

Enquanto, angustiado, procura o automóvel, surge novo larápio, que o imobiliza e lhe tira todo o dinheiro, deixando-o de mãos abanando.

 

Inconformado com o roubo do carro e da grana, o bandido vai até a delegacia para prestar queixas, mas, ali chegando, encontra o dono da farmácia. Acaba preso na hora.

 

Maurício Ferro, o “Bagulhinho” – este o seu nome de batismo e de guerra – disse que ficou impressionado com a violência: «Hoje em dia a violência é tanta, que você sai para assaltar e volta mais pobre ainda! A gente não pode levar a vida tranquilamente, está me entendendo? Roubaram meu dinheiro e meu carro novinho».

 

Repórter: «Diga-me uma coisa: você tinha acabado de comprar o carro?».

 

Bagulhinho: «Comprei nada, não! Roubei o carro ontem. Fazia um dia que estava comigo; era novinho. É pro senhor vê como estão as coisas, tá ligado? A malandragem é danada! Os caras não deixam a gente usufruir daquilo que conseguimos com o nosso suor. Esse bagulho não é maneiro não, doutor».

 

Repórter: «Mas, espera aí: se o carro não era seu, você está reclamando de quê?».

 

Bagulhinho: «Ué, do assalto em cima do meu assalto. Isso é falta de respeito».

 

Repórter: «Mas se nem o dinheiro era seu...».

 

Bagulhinho: «Como não era meu, doutor? O dinheiro era meu, sim! O dinheiro era meu, pô! Eu o roubei, é meu, fruto da minha falta de emprego».

 

Infelizmente, os roubos do Bagulhinho são “café pequeno” se comparados com as falcatruas que acontecem em todos os recantos do Brasil e em todas as camadas sociais. Um estudo realizado pela Federação das Indústrias de São Paulo, em 2011, revelou que os prejuízos sociais e econômicos trazidos pela corrupção ao país alcançam o valor de 69 bilhões de reais por ano.

 

Penso, porém, que, para uma inversão de rota, mais do que se contentar em apontar culpados, devamos lembrar o que Jesus disse a quem se preparava para apedrejar uma adúltera: «Jogue a primeira pedra quem estiver sem pecado!» (Jo 8,7). São tão frequentes e tão grandes os casos de malandragem noticiados pela imprensa, que se lhe poderiam aplicar – “mutatis mutandis” – as palavras com que o apóstolo João termina o seu evangelho: «Se fossem escritas uma a uma todas as coisas que Jesus fez, não caberiam no mundo os livros que deveriam ser escritos» (Jo 21, 25). Até mesmo a religião pode se tornar um caminho fácil e eficaz para elevar o nível do próprio capital. Não foi por nada que, no dia 17 de janeiro de 2013, a revista Forbes incluiu algumas de suas lideranças entre os que mais enriquecem no Brasil.

 

É por esses e outros motivos que permanece sempre atual a reflexão feita pelo episcopado católico latino-americano em maio de 2007, durante a sua conferência de Aparecida: «Cabe assinalar, como grande fator negativo em boa parte da região, o recrudescimento da corrupção na sociedade e no Estado, envolvendo os poderes legislativos e executivos em todos os níveis, alcançando também o sistema judiciário que, muitas vezes, inclina seu juízo a favor dos poderosos e gera impunidade, o que coloca em sério risco a credibilidade das instituições públicas e aumenta a desconfiança do povo, fenômeno que se une a um profundo desprezo pela legalidade».

 

Quem sentiu tudo isso na pele foi Rui Barbosa (1849/1923). Por quatro vezes candidato à presidência da República – mas sempre derrotado por ser mais honesto do que rico – desabafou no final de sua vida: «De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver se agigantarem os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto!».

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