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Não só de terra vivem os índios



Dom Redovino Rizzardo
Bispo de Dourados (MS)


 

 

 

No dia 16 de fevereiro de 2013, em Caarapó (MS), Denilson Barbosa, um indígena de 15 anos, foi assassinado com um tiro na cabeça e abandonado numa estrada vicinal do município. O adolescente estava se dirigindo para pescar numa fazenda dos arredores com outros dois companheiros, quando foi morto por três homens, entre eles o proprietário. Como resposta ao crime, cerca de 200 índios invadiram a propriedade, há tempo reivindicada como “terra tradicional”.

 

A morte de Denilson é um novo capítulo da violência provocada pelo barril de pólvora que virou o Mato Grosso do Sul. Por não se tomarem as medidas necessárias para dirimir um conflito que cresce a cada ano que passa, o medo e a desconfiança mantêm em margens opostas indígenas e agricultores, transformando-se em ódio e assassinatos. Enquanto isso, as autoridades de Brasília continuam visitando a região para renovar promessas que nunca se cumprem e participar de simpósios que nada resolvem.

 

“Nada resolvem”, pela falta de vontade política, que precisa de excluídos e marginalizados como massa de manobra para fins eleitoreiros. Contudo, em seminários onde a palavra é dada a todos, inclusive aos indígenas, começou a surgir uma luz no fundo do túnel, sintetizada em dois itens de capital importância: quanto aos produtores rurais que tiverem suas propriedades demarcadas, sejam indenizados pelo valor real das mesmas (e não apenas por suas benfeitorias); quanto às comunidades indígenas, suas aldeias sejam revitalizadas e transformadas em núcleos populacionais (urbanos e rurais), com os serviços e as políticas públicas indispensáveis às necessidades de seus habitantes, assim como se procura fazer com as demais cidades e vilas do país.

 

O mundo caminha e a cultura vai sendo regida por novos paradigmas. Mesmo respeitando a índole de cada povo, é impossível retornar aos “bons tempos antigos”. Os conflitos de geração começam a medrar também entre as famílias e comunidades indígenas. Como consequência, cresce em seu meio o êxodo rural que atinge os não-índios em outros recantos do Brasil. Cada vez mais, são somente os adultos e as crianças que permanecem no campo. É a constatação que faço nas visitas a algumas aldeias da Diocese de Dourados. Apesar de seus territórios serem normalmente considerados exíguos, há terra inculta ou arrendada para fazendeiros vizinhos. Dois são os motivos desta situação: para os índios, a falta de condições e os critérios diferentes no cultivo; para o governo, o agronegócio tem primazia sobre a agricultura familiar.

 

Afetados pela globalização galopante que avança em toda a parte, os jovens indígenas são levados a rever os critérios de inculturação e integração que lhes eram repassados. Aqueles que não têm acesso aos cursos superiores – são a imensa maioria – preferem trabalhar nas usinas de álcool, na construção civil e em várias empresas das cidades vizinhas, pois, no final do mês, têm o seu dinheirinho garantido.

 

Os índios fazem parte da “aldeia global” em que se está transformando o mundo, como previu Marshall McLuhan, em 1962. Se, em todos os segmentos da sociedade, o mau uso dos meios de comunicação faz as suas vítimas, não são exceção os jovens indígenas. A corrupção, a violência, a droga, a bebida, a prostituição – e muitos outros males e doenças – deixaram de ser apanágio dos “brancos”. É a queixa que ouvi de um idoso, que falava com saudades do tempo em que «o povo vivia do que plantava. Havia milho, mandioca e batata. Hoje, índio novo não quer mais trabalhar a terra e, por isso, não tem o que colher». E concluía com tristeza: «O moço agora bebe e arruma briga. Naquela época só tinha chicha».

Há séculos, os Guarani/Kaiowá do Mato Grosso do Sul caminham em busca do “bem viver” numa “terra sem males”. Talvez seja por isso que se sentem mais nômades do que sedentários. Os “novos céus e a nova terra” não são privilégio da utopia cristã. São eles que sustentam a labuta do homem e o tornam solidário com os irmãos de caminhada. É nesta partilha de dons e de serviços, em que cada cidadão é respeitado e protagonista, que se constrói a sociedade que o Brasil precisa. Se os valores e os direitos são inquestionáveis, também o são os deveres... e as diferenças, como pediu uma liderança indígena: «A sociedade branca tem que entender e respeitar o nosso jeito de ser e de viver. Não estamos em luta contra ela. Nós também somos parte dela, só que com nossas diferenças».

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