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Homilia de Dom Franco Dalla Valle, no dia da Posse (29-03-1998)



 

“Excelências Reverendíssimas”, Senhores Arcebispos, Bispos, Padres, Irmãs, agentes de Pastoral, autoridades Civis e Militares, Irmãos e Filhos queridos, permitam que lhes externe meus sentimentos de gratidão e de admiração pela acolhida e por todo o trabalho que está sendo feito pela implantação da nova Diocese, pela presença aqui, muitos vieram de longe, de Manaus, de Porto Velho, de Ji-Paraná, de Aripuanã, de Cotriguaçu, de Brasnorte, de Campo Grande, de Cuiabá, de Brasília. Sinto-me honrado, Juína sente-se honrada com tantos e tão importantes visitantes. Obrigado, povo de Juína e da nova Diocese. Aqui com vocês me sinto bem, me sinto em casa, nisso podem ficar tranquilos, me cativaram.

 

Permitam que me apresente: sou um migrante, das terras dos parentes de muitos de vocês, da Itália, do Vêneto, comedor de polenta. Sou um migrante desde os seis anos de idade, já mudei de casa na média a cada três anos, mas vim para ficar, e nisso quero dar bom exemplo para esse povo inquieto que está com as rodas debaixo da mala, eu vim para ficar, Senhor Núncio, me deixe aqui com esse povo.

 

Sou brasileiro deste Norte do Brasil a trinta anos, conheço o calor, o clima e as dificuldades da inculturação, com esse povo sofrido e explorado do Norte, nossos irmãos índios em primeiro lugar, povos antigos e nobres. Antes de deixar Manaus, numa reunião privada das lideranças indígenas da Amazônia, foi feito o elenco dos maiores defensores e amigos dos povos indígenas da região, não havia branco, nem missionário pelo meio, e deram o princípio lugar à Igreja Católica. Obrigado irmão índio do Norte por esse reconhecimento. Índio não esquece o mal e o bem recebido. Sei que tenho colaborado com isso, com planos de saúde, com escolas indígenas bilíngue, esclarecendo à sociedade e desfazendo preconceitos que a sociedade brasileira tem por motivos históricos contra o nosso maior patrimônio cultural e humano, nossos irmãos índios.

 

Relutei antes de aceitar vir aqui, não nego, porque sou um pobre filho de lavradores, que sempre precisei dos outros, e temia fazer vergonha para a Igreja, e não aguentar o rojão, o trabalho duro, minha avó me dizia: estuda Franco, que a terra é baixa, e doe as costas. Fundar uma Igreja é um trabalho que não termina, nem fica pouco. Mas agora me sinto feliz.

 

Ainda não tenho uma visão completa da situação e demorará um pouco para acertar o passo na caminhada do povo, somando forças e animando o entusiasmo, construindo história. Dou graças a Deus porque percebi ter chegado no meio de um povo bom, sacrificado e lutador. Percebo que a longa caminhada conduzida por Dom Antônio Possamai e pelas Dioceses de Ji-Paraná e Diamantino criou um espírito comunitário sólido e fraterno, e nossa Igreja nasce com uma base participativa que enfrenta os desafios com coragem e perseverança.

 

Vou precisar de todos, vamos precisar de todos. Por isso vamos precisar estar unidos. Vamos precisar da ajuda da Igreja, das Igrejas irmãs, mais antigas e mais estruturadas que nós, não temos sequer um padre diocesano, a maioria do nosso povo é pobre. Ao Senhor Núncio e aos outros Arcebispos e Bispos não tenho receio de dizer que estamos precisando de ajuda. Precisamos de ajuda dos políticos e governantes. Ontem chegaram o vice-governador e o senador, está aqui o Sr. prefeito de Juína e talvez de outras cidades. Agradecemos vossa presença, mas saibam que nosso povo precisa de vós. Dizei às autoridades de Cuiabá e de Brasília que não esqueçam esse povo que veio aqui sofrer pelo desenvolvimento dessa região. Precisamos de estradas, de escolas, de hospitais, de uma administração honesta e competente, mas também de recursos. O povo veio para ficar, não para explorar, destruir e roubar as riquezas desta região e gastá-la lá fora. A União precisa devolver a essa terra um pouco daquilo que tirou em 500 anos de exploração extrativista da Amazônia, implantando uma sólida infraestrutura que humanize a vida do cidadão que mora nessa terra. Precisamos de todos, porque só juntos formaremos um povo através do dízimo, da participação de todos. Esse povo será Igreja, povo de Deus.

 

Dizia-me um agente de pastoral ontem: ‘eu tinha esse cargo, eu fazia isso, agora, porém, com a vida do novo Bispo coloco o cargo a disposição’. Se antes a Igreja precisava de vocês, agora muito mais, muito mais catequese, muito mais pastoral, muito mais participação e corresponsabilidade, muito mais união, oração, trabalho. Alguém dirá: esse Bispo veio nos dar trabalho. Eu só quero dizer que fundar uma Igreja é um grande trabalho, bonito e abençoado por Deus, mas também é. Tenho medo da solidão, do isolamento que leva qualquer um ao desânimo. E lhes peço pelo amor de Deus, me ajudem, me corrijam, me ensinem, não me deixem só”.

  

Muito obrigado.

Dom Franco Dalla Valle, Primeiro Bispo Diocesano.

 

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