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Quem lembrou o Dia do Professor?



Não sou o único, mas me orgulho de recordar o nome da minha primeira professora. Por mudança da família, comecei a escola em Jales, em agosto de 1949. Tinha oito anos completos, calculem! As exigências para ingresso à escola eram mínimas, então. Aos quatro anos iniciais, porém, se davam uma seriedade e uma importância exemplares.

 Os professores do “grupo” ensinavam de verdade. Sempre fui aprovado em primeiro lugar. Ao concluir o quarto ano primário (atual quarta série do ensino fundamental), de Português, Matemática, Geografia, História e Conhecimentos Gerais eu dominava um conteúdo melhor do que a maioria dos alunos da oitava série de hoje. Não só eu. Qualquer aluno dos antigos grupos escolares dirá o mesmo.

 Família pobre, naquela época, mudava muito. De sítio para sítio, de uma fazenda para outra. Comigo não foi diferente. Colega meu, de quem não lembro o nome, contava, para diversão geral: “Nós mudamos tanto que, lá em casa, quando ouviam um barulho de caminhão, as galinhas já iam deitando e virando as pernas pra cima”. Quem morou na roça entende. Na mudança se levavam os “trens”, os quadrúpedes e as aves. As galinhas iam peadas, penduradas todas numa haste comprida.

 Voltando à minha primeira professora, era uma moça querida de todos. Com muita paciência encaminhou pelos meandros do saber aos rudes caipiras que éramos. Chamava-se Erotides Ferrari. Viera de Mirassol. Na sua imensa maioria, nossos professores eram solteiros e tinham residência em outras cidades. Devia haver alguma reunião em que lhes eram oferecidas vagas em localidades que podiam escolher. Ocupavam os dois hotéis do lugar, especialmente o Jales Hotel, ao lado do grupo escolar. Ou se hospedavam em residências. Por muito tempo a prima Iracema teve uma professora em casa. Quase virou membro da família.

 No Jales Hotel Oscar Aidar, meu professor do segundo ano, morou durante larga temporada. Desse eu guardo lembranças que não morrerão. Fumante, mostrou em sala o malefício do cigarro. Acendeu um, puxou a manga da camisa branca e baforou nela. Exibiu a mancha marrom, explicando: “Assim vai ficando o pulmão de quem fuma. Até se tornar todo preto”. Natural de Sorocaba, era um craque de bola. Tornou-se centroavante e ídolo do time vermelho e branco da cidade. Cobrador oficial de pênalti, não costumava tomar distância.

 Mal ouvia o trilar do apito, soltava a bomba. Se o goleiro fosse esperto, ainda podia ver o último balanço da rede. Nós, seus alunos, assistíamos às partidas jogadas em casa. Dia seguinte, o recreio era curto para comentários do jogo. Todos ao seu redor, no pátio onde ficava conosco. Não ia à sala dos professores.

 Ainda no meu primeiro ano, o diretor escolheu um aluno de cada série e nos incumbiu de presentear nosso professor. Deveríamos fazer uma vaquinha entre os colegas de sala. Quando se conferiram as arrecadações, quase morri de vergonha. Os míseros 7,50 cruzeiros que consegui só deram para comprar uma pavorosa tijelinha de vidro, que Dona Erotides agradeceu e festejou como um presente de rainha. Ninguém falava em Dia do Professor naquele tempo. Para si mesmo o diretor não pensou em presente. Mas aprendemos o valor dos professores.

 Seria bom que o professor Paulo, nosso diretor, ainda estivesse vivo. Ele está fazendo falta. Muitas pessoas esqueceram a importância do professor.

  Padre Orivaldo Robles é sacerdote na Arquidiocese de Maringá-PR

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